Últimas

Preso injustamente duas vezes passa 88 dias na cadeia: ‘minha vida acabou’

Preso injustamente duas vezes passa 88 dias na cadeia (Foto: TV Vanguarda/ Reprodução)

Um microempresário de São José dos Campos (SP) foi preso injustamente duas vezes sob acusação de ter cometido uma série de crimes e roubos contra mulheres na zona sul da cidade. Com as prisões, ele passou 88 dias na cadeia até que a esposa e a cunhada fizessem uma investigação particular e conseguissem provar que ele não era o autor dos delitos.

Alexandre Gonçalves, que foi apelidado de maníaco do facão pela forma que abordava as vítimas, agora em liberdade, lembra que o episódio causou depressão e ele chegou a pensar até em suicídio.

“Para mim a vida não tinha mais sentido, tentei suicídio, bebia noite e dia. Não é fácil sair na rua e as pessoas falarem ‘Ah lá o maníaco’ “, disse.

As prisões foram entre setembro de 2015 e abril 2016. Um dos crimes pelo qual Alexandre foi acusado, um roubo, aconteceu dia 22 de setembro de 2015. Na ocasião, ele foi preso em flagrante.

Para a mulher de Alexandre, Elizabeth Costa, um trauma difícil de esquecer. “Aquilo foi um pavor pra mim. Comecei a ficar em desespero e falei: ‘Meu Deus, o que está acontecendo?’ Foi muito triste, um desespero, sofremos muito”, afirmou.

A cunhada de Alexandre, Isaura Costa, relembra o sofrimento. “Não tem como calcular, a gente sofreu e sofria mais porque sabíamos que ele era inocente”, disse.

Alexandre foi acusado de ser um homem que apavorou São José. Relatos davam conta que um homem, em uma caminhonete branca, assaltava mulheres com um facão. Nos assaltos, ele levava bolsa e dinheiro delas. Uma dessas ações foi na rua onde o microempresário mora.

Na época ele atuava no ramo de reciclagem e usava um veículo semelhante para recolher o lixo. Um dia após o assalto na rua, Alexandre saía de casa cedo para trabalhar e foi preso. Uma das vítimas do assalto o reconheceu como o autor e ele acabou preso em flagrante por assalto a mão armada.

“De manhã eu saí para trabalhar e, à noite eu estava num presídio. E eu perguntava, o que eu fiz? Até hoje eu pergunto sem ter essa resposta, ninguém consegue me dizer o que eu fiz”, lamentou.

O microempresário conta que até tentou se explicar para a polícía, mas na delegacia outras vítimas o reconheceram como sendo o assaltante.

Erro

O delegado responsável pelo caso, Régis Germano, no entanto, não vê erro da polícia. “Nesse caso nós tivemos quatro vítimas que o reconheceram plenamente como autor do delito. E pela nossa jurisprudência pátria, a palavra da vítima tem um relevo enorme. Não restou outra alternativa a não ser fazer o flagrante. As vítimas todas o reconheceram”, disse o delegado.

No boletim de ocorrência consta que as vítimas reconheceram o Alexandre ‘sem sombra de dúvidas’, mesmo assim, na opinião de um jurista, só o testemunho não poderia sustentar uma prisão.

“A palavra da vítima é valorizada, mas a versão do réu também deveria ser. A palavra da vítima não pode ser considerada isoladamente, isso aí gera uma tremenda insegurança jurídica”, disse o advogado Romeu Goffi.

“Imagine se qualquer um de nós pudesse ser encarcerado sumariamente por alguém que supostamente teria nos reconhecido como autor de um crime. Eu considero isso um absurdo, um ato atentatório à ilegalidade. Liberdade é algo sagrado”, concluiu o jurista.

Depois destes reconhecimentos, Alexandre foi detido e levado para o Centro de Detenção de Provisória (CDP) e ficou detido por 29 dias.

Desesperada, a cunhada e a mulher do Alexandre decidiram ir para a rua e fazer o trabalho que, na prática, deveria ter sido feito pela polícia. Elas refizeram os locais do assalto para procurar pistas que provassem que Alexandre não era criminoso. As pistas provara que ele era inocente.

“O que a polícia devia ter feito? Investigado. Mas a gente viu que não ia ter investigação. A gente tinha que provar que ele era inocente, porque a gente sabia, mas a Justiça não”, disse a cunhada de Alexandre.

O trabalho que os investigadores não fizeram, a família fez. Primeiro, a esposa e a cunhada provaram que as mesmas vítimas que disseram que Alexandre eram o assaltante, haviam informado antes, que o criminoso era alto, magro e branco. “Eu me tornei branco, magro e alto?”, disse Alexandre, que é negro e está acima do peso.

Elas conseguiram provar também, por meio de uma câmera a 100 metros da casa da família, a imagem mostrava uma das vítimas andando na rua. Logo em seguida passa o carro do assaltante, uma caminhonete Strada branca. Só que o carro do microempresário era uma Courrier branca. Essa era a prova de que ele não era o assaltante.

“Se a polícia tivesse investigado, não teria acontecido essa injustiça. Se a polícia quisesse investigar, conseguiria, porque tinha a imagem da hora do assalto. Foi uma falha da investigação e foi bem mais cômodo para a polícia, como tinha que mostrar uma imagem para sociedade, prenderam alguém pra dizer que ‘está aqui o bandido. Ação desastrosa da polícia'”, afirmou Alexandre.

O delegado contesta. “A prisão dele foi feita em flagrante delito, quando é feito o flagrante delito. Não tem como buscarmos esses meios, essa fonte de provas naquele momento. No teor das investigações dos outros casos, sim, poderia, normalmente, mas no caso concreto foi feito em flagrante, o que deixou de lado essas provas que não foram julgadas nos autos”, disse Germano.

Preso de novo

Depois de 29 dias, o microempresário saiu da prisão, mas não imaginava que outra falha ocorreria.

Depois de três meses em liberdade, ele voltou a ser preso por mais 60 dias. “Não aguentei e caí, porque estavam fazendo isso comigo? Ali minha vida acabou, porque eu sabia que ia voltar pro presídio e seria um sofrimento de novo. Entrei em desespero”, disse a vítima.

Desta vez Alexandre foi preso por uma falta de comunicação da Justiça. A família então conseguiu levar o caso a um promotor do MP, que pediu o alvará de soltura para ele.

Na ocasião ainda tinham outros cinco casos do mesmo tipo de assalto, contra Alexandre, tramitando na Justiça. Esses casos eram analisados por outros promotores e juízes e ainda havia um mandado de prisão contra ele.

Por isso, mesmo com a prisão do verdadeiro autor do crime, Alexandre acabou voltando para a cadeia. “Foi um terror. O que a gente se agarrou foi à Justiça divina, porque a Justiça dos homens pe cega, lenta e às vezes falha”, disse a esposa de Alexandre.

Fonte: G1

Preso injustamente duas vezes passa 88 dias na cadeia (Foto: TV Vanguarda/ Reprodução)

Sobre André Luiz Badaró

Diretor Executivo e Jornalista Responsável